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Início » 4º Seminário de Farma do Grupo MCassab debate o uso medicinal da Cannabis
Uncategorized Por Janaina11 minutos de leitura16/10/2019 · 15:24

4º Seminário de Farma do Grupo MCassab debate o uso medicinal da Cannabis

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Encontro reuniu especialistas internacionais e profissionais da indústria farmacêutica

Por Estela Mendonça

Umas das questões mais discutidas atualmente nos meios científicos, sociais e políticos, o uso medicinal da Cannabis foi o tema escolhido para o 4º Workshop de Farma, promovido pelo Grupo MCassab no dia 25 de setembro, em São Paulo. A decisão de realizar o evento, segundo Guilherme Moretto, Head de Farma, partiu do entendimento do papel da distribuidora de trazer para a indústria farmacêutica conhecimento sobre as transformações no mercado. “Por isso, convidamos clientes e parceiros para trazer à tona e debater o cenário global e local, as questões regulatórias e as aplicações medicinais dos canabinoides, além das oportunidades para as empresas atuarem nesse mercado. Acredito que estamos dando os primeiros passos para nos preparar para o futuro”.

Abordando as perspectivas do mercado de canabinoides, Monica Simão, Gerente de Cliente da Mintel da América Latina, lembrou que a Cannabis por muito tempo foi associada ao THC, princípio psicoativo, mas recentemente o foco vem mudando para um segundo composto: o cannabidiol (CBD). Em 2018, a Organização Mundial da Saúde declarou que não havia riscos à saúde pública ou potenciais no uso da CBD. “O recente interesse em torno do CBD foi alimentado por muitos benefícios de saúde alegados, como melhora do sono, redução de ansiedade e estresse, propriedades anticonvulsivas, alívio da dor e muitos outros”.

Mônica destacou que o cenário regulatório indefinido apresenta desafios significativos para o CBD no mercado, mas que ele está sendo visto separadamente do produto voltado para uso recreativo. Em novembro de 2017, a Organização Mundial da Saúde concluiu: “Em seu estado puro, o cannabidiol não parece ter potencial de abuso ou causar danos”. A World Anti-Doping Agency (WADA) chegou a uma conclusão semelhante e suspendeu a proibição do CBD, a partir de 2018.

Monica Simão, gerente de Cliente da Mintel da América Latina

“Assim, há uma corrida de empresas de investimentos, biotecnologia e farmacêutica para conquistar um lugar na nova indústria emergente de Cannabis, CBD e demais marcadores químicos”, disse, ressaltando que a indústria de CBD dos EUA cresceu cerca de 40% em 2017, com previsão de atingir 700% de crescimento até 2020, segundo a Forbes.  “Nos próximos anos, em muitos mercados, os consumidores terão maior acesso a essas substâncias na área médica e farmacêutica, o que ajudará a regulamentar o uso. A mudança na imagem é motivada, em parte, pela eficácia comprovada, mas também por campanhas de marketing inteligentes, financiadas por empresas cujo trabalho é transformar a Cannabis e o CBD em substâncias desmistificadas e seguras”.

Segundo a gerente da Mintel, os EUA lideram o desenvolvimento da propriedade intelectual relacionada ao CBD, juntamente com uma forte representação de países europeus. Para ela, o potencial de mercado na América Latina é grande, já que há uma lacuna para mais inovação centrada em resolver problemas de saúde mental.

Desafios da regulação

O advogado Emílio Figueiredo, um dos mais atuantes do país em ações judiciais para a liberação do cultivo da planta para fins medicinais, em sua apresentação, mostrou um panorama das decisões judiciais. Também atuou na ação que garantiu à Abrace (João Pessoa-PB) o direito de cultivo coletivo e o fornecimento do óleo de Cannabis aos associados a preços acessíveis.

Emílio Figueiredo, um dos mais atuantes advogados em ações para a liberação do cultivo

Figueiredo destacou que estão em tramitação vários projetos de lei no Congresso que tratam da descriminalização e a regulação e liberação do plantio da Cannabis para uso medicinal. Também foram encerradas duas consultas públicas abertas pela Anvisa que tratam sobre o procedimento específico para registro e monitoramento de medicamentos à base de Cannabis, seus derivados e análogos sintéticos (654/2019) e sobre requisitos técnicos e administrativos para o cultivo da Cannabis para fins medicinais e científicos (655/2019).

“Cabe ao Estado regular, regulamentar, fiscalizar, fomentar, incentivar, pesquisar e fornecer pelo Sistema Único de Saúde; às empresas, pesquisar e desenvolver produtos e insumos para atender o mercado e às organizações da sociedade civil,acolher, conscientizar, agir em rede, demandar por direitos, providenciar o cultivo coletivo e o preparo do óleo exclusivamente a seus associados”, disse.

Sistema endocanobinoide

Joost Heeroma, Diretor de Ciência da GH Medical, pesquisador biomédico com PhD em Genômica Funcional e que tem como foco central de suas pesquisas a homeostase, conjunto de mecanismos de feedback biológico que mantém o corpo em equilíbrio e livre de doenças. Atualmente estuda o maior grupo de todos os reguladores de feedback: os canabinoides.

A explicação do pesquisador para essa revolução representada pelos canabinoides é o sistema endocanabinoide, que governa as funções mais críticas da vida, como o controle da divisão celular, do metabolismo, do sistema imunológico e da atividade cerebral. Ele explica que falhas no controle da divisão celular podem levar ao câncer ou a doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Já o descontrole nos níveis de energia pode levar à anorexia ou à bulimia. A capacidade alterada de distinção celular é outra condição que pode resultar em doenças autoimunes, como Crohn, esclerose múltipla e psoríase. Da mesma forma, a dificuldade em manter o equilíbrio da atividade cerebral pode se manifestar como epilepsia, autismo, enxaqueca, esquizofrenia ou depressão.

Joost Heeroma, Diretor de Ciência da GH Medical

Uma vez que os endocanabinoides são funcionalmente muito semelhantes aos canabinoides de plantas, eles podem ser explorados para impulsionar o sistema endocanabinoide e promover o equilíbrio mental e físico. “Esta é a chave para o potencial terapêutico dos canabinoides de plantas. Assim, tanto os endocanabinoides como os canabinoides de plantas são compostos naturais que são diretamente derivados ou compatíveis com nosso metabolismo central”.

Heeroma frisou que o uso terapêutico de canabinoides remonta a milhares de anos na Índia e na China, onde a Cannabis era recomendada para casos de malária, disenteria, constipação, dor reumática ou menstrual e induzir o sono e estimular o apetite. Há evidências científicas do potencial terapêutico dos canabinoides em muitos distúrbios e enfermidades. Isso inclui algumas das doenças mais graves e que também causam um alto impacto socioeconômico no mundo desenvolvido: Alzheimer, câncer, depressão, diabetes, epilepsia, obesidade, dor e outros. “Esta lista provavelmente crescerá,pois qualquer desequilíbrio na divisão celular, no metabolismo, no sistema imunológico ou atividade cerebral é potencialmente candidato ao tratamento com canabinoides”.

A maior parte das evidências dos canabinoides terapêuticos se baseia no THC e CBD. Além deles, existem outros 30 canabinoides que ativam pelo menos um dos 42 receptores de canabinoides no corpo. Suas propriedades ainda são desconhecidas, mas o uso dos extratos de Cannabis (que contêm todos os cannabinoides em quantidades variáveis) consistentemente dão melhores resultados clínicos do que a administração do canabinoides de forma isolada.

Interação terapêutica

O médico, terapeuta da dor e farmacologista, Lorenzo Calvi, um dos mais proeminentes pesquisadores italianos e com vasta experiência no tratamento de pacientes com medicina baseada em Cannabis, abordou o desenvolvimento de medicamentos à base de canabinoides, desde a sua extração das plantas até a fabricação industrial, incluindo os processos de segurança, qualidade e padronização.

Ele explicou que, no caso da Cannabis, há uma tendência de se eleger apenas um ingrediente ativo, extraído por solvente ou sintetizado quimicamente e não a parte da planta onde este ingrediente está concentrado. “A planta produz mais de 600 substâncias diferentes, incluindo canabinoides, terpenos e flavonoides, os quais juntos interagem e contribuem para o efeito terapêutico e medicinal”.

Calvi reforçou que foi demonstrado em pesquisas que o fito complexo pode ser mais eficaz e com menos efeitos colaterais do que a formulação de ingredientes ativos isolados puros. Com isso, ele defende o canal galênico magistral, no qual uma terapia específica e personalizada é formulada pelo médico para um único paciente, preparado especificamente pelo farmacêutico e usado sob responsabilidade do médico e do paciente.

Lorenzo Calvi, médico, terapeuta da dor e farmacologista

“A complexidade química de seus constituintes bioativos requer abordagens analíticas padronizadas e bem definidas para o plantio para garantir o padrão da planta, a segurança e a qualidade dos extratos e das preparações farmacêuticas”, alertou.

Embora análogos sintéticos de CBD também estejam surgindo, o pesquisador destacou que um isolado de CBD não é superior a um extrato rico em CBD da planta inteira. “Estudos que compararam a eficácia de concentrados de óleo de CBD de molécula única e de espectro total de CBD indicaram que o isolado sintético de CBD é eficaz apenas em doses precisas e altas, enquanto que os extratos de planta inteira rico em CBD têm uma janela terapêutica muito mais ampla e segura, sendo eficazes em doses significativamente mais baixas. Interações medicamentosas também são muito mais prováveis ​​com altas doses de CBD de molécula única”. Para ele, a política regulatória não deve privilegiar os medicamentos de molécula única sobre os de Cannabis de espectro total.

Formulações desafiadoras

Embora as formulações contendo canabinoides possam ser desafiadoras, Kelly Bueno, responsável pelo marketing e suporte técnico de farma para a América do Sul e Central da Gattefossé, explicou que as formulações lipídicas demonstram aumentar a biodisponibilidade dos canabinoides, melhorando a solubilidade, a permeabilidade intestinal e o aprimoramento da via linfática de absorção.

Kelly destacou que um dos caminhos para aumentar a biodisponibilidade de medicamentos altamente lipofílicos é buscar a absorção preferencial no sistema de transporte linfático, diminuindo consequentemente o metabolismo de primeira passagem do medicamento no fígado. Formulações com ácidos graxos de cadeia longa podem ser uma estratégia promissora para os endocanabinoides, citando como exemplo os produtos: Maisine®,Peceol®, Labrafil® M1944CS e Plurol® Oleique CC 497.

Segundo a especialista da Gattefossé, uma seleção cuidadosa dos excipientes com o comprimento correto da cadeia de ácidos graxos, ponto de fusão e propriedades de emulsificação, é possível projetar formas de dosagem sofisticadas. “Sistemas de entrega de medicamentos auto (micro) emulsificantes, conhecidos como SEDDS e SMEDDS são uma solução adequada para melhorar a entrega de medicamentos por via oral. Nesses sistemas, os excipientes Labrasol®,Gelucire® 44/14,Gelucire® 48/16,Gelucire® 50/13 e Labrafil® melhoram a solubilidade e a permeabilidade de fármacos pouco solúveis como os canabinoides. Já o Compritol® 888 ATO e o Precirol® ATO 5 podem ser aplicados para ​o mascaramento do sabor e para preparação de sistemas de liberação sustentada na forma de grânulos ou comprimidos”.

Para aplicações na pele, de acordo com Kelly, a escolha da forma farmacêutica dependerá em grande parte das condições de uso pretendidas, como espalhabilidade sobre uma determinada área da pele, frequência de uso e concentração de canabinoides pretendida a ser entregue. Além disso, podem ser adicionados melhoradores de permeabilidade que promovem o aumento da taxa de penetração e permeação de fármacos na derme.Segundo ela, o Transcutol® P, solubilizante anfifílico e agente de permeação, além de compatível com várias formas farmacêuticas, é seguro e pode ser usado em combinação com outros excipientes, como Labrasol®, Labrafil®, Plurol® Oleique CC 497, Lauroglycol™ e Capryol™ para otimizar a permeação de ativos.

Kelly Bueno, responsável pelo marketing e suporte técnico de farma da Gattefossé

A Gattefossé também oferece excipientes lipídicos para vias alternativas, como a mucosa (nasal, bucal, retal e vaginal), que são altamente eficazes, pois proporcionam administração e absorção mais rápidas, sem os inconvenientes da rejeição ao sabor ou náusea. São eles: Lauroglycol™, Labrafac®, Lipophile WL 1349, Labrafil® M 1944 e Capryol™.

“A grande gama de excipientes oferecidos pela Gattefossé ajuda a reduzir o tempo de desenvolvimento. A empresa também disponibiliza guias de formulações para diversas vias de administração, uma extensiva base de dados e laboratório de aplicação para auxiliar no desenvolvimento das formulações e no suporte técnico”, garantiu Kelly.

Cumprindo seu papel

“Os temas abordados durante o evento encontram força no crescente interesse do uso terapêutico da Cannabis, especialmente por seus diversos benefícios já apontados em estudos clínicos e tratamentos de doenças crônicas e degenerativas. Reforçamos nosso papel de prover soluções para indústria farmacêutica, trazendo para discussão um panorama regulatório-legal, científico e prático da aplicação da Cannabis e suas frações no cenário brasileiro”, finaliza Guilherme Moretto, Head de Farma no Grupo MCassab.

Guilherme Moretto, Head de Farma no Grupo MCassab

 

 

 

 

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