Sustentabilidade, performance e engenharia de liberação colocam excipientes no centro do desenvolvimento de medicamentos
Por Rodrigo Rezende
A indústria farmacêutica atravessa uma mudança silenciosa e estrutural. Tradicionalmente vistos como coadjuvantes, os excipientes passam a ocupar posição central no desempenho, na segurança e na diferenciação dos medicamentos. Entre o final de 2025 e o início de 2026, avanços tecnológicos, movimentos industriais e novas demandas regulatórias reforçam esse reposicionamento.
De excipientes “verdes” a sistemas avançados de drug delivery baseados em micro e nanopartículas, o setor evolui em resposta à crescente complexidade dos APIs. E, além disso, exige uma abordagem cada vez mais integrada entre química, engenharia e regulação.
Excipientes “verdes” pressionam reformulações
A agenda ESG deixou de ser periférica. Hoje, influencia decisões técnicas de formulação, especialmente em mercados mais regulados.
Fornecedores globais vêm inovando os seus portfólios com matérias-primas de origem renovável, processos produtivos mais limpos e maior rastreabilidade. Com isso, empresas como IFF Pharma Solutions têm reforçado o desenvolvimento de soluções alinhadas a critérios ambientais mais rigorosos, incluindo redução de pegada de carbono e maior transparência na cadeia.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse por sistemas multifuncionais e por estratégias que reduzam o número total de excipientes em uma formulação. Menos componentes significam menos impacto ambiental. E também mais eficiência industrial.
Ainda assim, o avanço não é linear. A substituição de excipientes consolidados exige validação técnica e regulatória robusta. Em muitos casos, isso implica reestudos completos de estabilidade e desempenho, o que tende a desacelerar a adoção em produtos já estabelecidos.
Adjuvantes e veiculantes multifuncionais
Os excipientes deixam de ter funções isoladas e passam a atuar de forma multifuncional nas formulações. Empresas como Ashland e Colorcon vêm desenvolvendo soluções capazes de atuar simultaneamente como ligantes, desintegrantes, estabilizantes e moduladores de liberação. O ganho é direto, com simplificação de formulações e maior robustez de processo.
Além do mais, sistemas clássicos como as ciclodextrinas passam por uma ampliação de uso. De agentes de solubilização, evoluem para plataformas mais versáteis, com aplicações em estabilização de moléculas sensíveis e suporte a formulações mais complexas.
No fundo, isso se apresenta como uma resposta prática a um desafio crescente. O de como manter controle e previsibilidade em formulações cada vez mais sofisticadas.
Demanda por excipientes de alta performance
A evolução dos APIs, especialmente moléculas pouco solúveis e biológicos, impõe novos desafios à formulação. E isso muda o papel dos excipientes.
Empresas como Roquette vêm destacando avanços em sistemas de liberação controlada e plataformas integradas de drug delivery. Os objetivos são claros. Melhorar biodisponibilidade, reduzir efeitos adversos e aumentar a adesão ao tratamento.
Essa tendência também começa a aparecer nas próprias farmacêuticas. A Pfizer, por exemplo, tem reforçado o uso de tecnologias avançadas de entrega em formulações orais e injetáveis, especialmente em terapias mais complexas.
Na prática, há uma convergência. O desenvolvimento do fármaco já não se separa da engenharia da formulação. Um depende do outro.
Excipientes lipídicos ganham espaço
Nesse aspecto, os excipientes lipídicos se consolidam como uma das principais rotas para aumento de biodisponibilidade, sobretudo em ativos classificados como BCS II e IV.
A Gattefossé, multinacional francesa especializada nesse tipo de solução, vem destacando avanços em sistemas voltados à solubilidade e absorção oral.
Entre os exemplos estão o Labrasol® ALF e o Labrafac™ MC60, utilizados em sistemas autoemulsionantes como SEDDS e SMEDDS. O primeiro atua como solubilizante e tensoativo não iônico, formando microemulsões espontaneamente, aumentando a permeação intestinal. O segundo, baseado em glicerídeos de cadeia média, contribui para a solubilização, aumento da absorção e permeação intestinal.

Segundo Kelly Bueno, Gerente de Desenvolvimento de Negócios Farma Latam da empresa, o impacto dessas soluções é direto na performance dos medicamentos.
“Na era das formulações inovadoras, formulações lipídicas se apresentam como uma alternativa eficaz e de rápido desenvolvimento. Excipientes lipídicos como Labrasol® ALF e Labrafac™ MC60 revolucionam a solubilidade de ativos pouco solúveis, superando esse obstáculo e aumentando a biodisponibilidade oral por meio de diferentes mecanismos”, afirma.
Cadeia de suprimentos entra no radar estratégico dos excipientes
A discussão sobre excipientes não se limita mais à formulação. Ela chega à cadeia de suprimentos. A crescente dependência de materiais de alta performance tem levado fornecedores a investir em capacidade produtiva e regionalização. Um exemplo recente é a expansão industrial da Gattefossé nos Estados Unidos, com foco na produção de excipientes lipídicos.
O movimento reflete uma necessidade clara, a de aproximar produção e demanda, reduzir riscos logísticos e garantir continuidade de abastecimento.
Mais do que volume, entra em jogo a qualidade. Novas plantas já nascem alinhadas a padrões rigorosos – como GMP e certificações específicas para excipientes –, além de incorporar diretrizes ambientais.
Para a indústria farmacêutica, o impacto é direto. Afinal, formulações mais sofisticadas exigem cadeias igualmente robustas.
Distribuidores e desenvolvedores de ingredientes ampliam o seu papel na cadeia de valor dos excipientes. Empresas como a Caldic passam a atuar em fornecimento e também como parceiras no desenvolvimento de formulações, oferecendo suporte técnico, orientação regulatória e soluções adaptadas a diferentes formas farmacêuticas. De sólidos orais a líquidos e sistemas mais complexos. A proposta é garantir consistência, conformidade e desempenho desde as fases iniciais até a produção, ao mesmo tempo em que se avança em critérios de sustentabilidade.



