Documento apresenta recomendações condicionais para terapias com GLP-1 e destaca a importância de garantir acesso equitativo, preços viáveis e integração a modelos completos de cuidado em saúde
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou, em 1º de dezembro de 2025, sua primeira diretriz específica para o uso de terapias baseadas em agonistas do GLP-1 no manejo da obesidade.
A recomendação, classificada como condicional, orienta a utilização desses medicamentos como parte de um tratamento contínuo para uma condição que afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo.
A iniciativa ocorre em um cenário de forte crescimento da demanda por essa classe terapêutica, popularmente conhecida como canetas emagrecedoras, enquanto governos e sistemas de saúde avaliam estratégias para incorporá-las de forma sustentável às políticas públicas. A OMS aconselha que adultos, exceto gestantes, possam utilizar medicamentos GLP-1 em tratamentos de longo prazo e destaca que a intervenção deve ser acompanhada de medidas complementares, como alimentação equilibrada e prática regular de atividade física.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ressaltou que a diretriz reforça o entendimento da obesidade como doença crônica que requer cuidado integrado e contínuo. Ele alertou, porém, que a farmacoterapia isolada não é suficiente para enfrentar a dimensão global do problema.
Especialistas consultados pela agência, como a pesquisadora Marie Spreckley, da Universidade de Cambridge, afirmam que a classificação condicional é apropriada diante das incertezas relacionadas ao uso prolongado, custos associados e capacidade dos sistemas de saúde absorverem a nova demanda.
A OMS aponta que o maior obstáculo atualmente é o acesso às terapias. Mesmo com a expansão acelerada da capacidade produtiva, estima-se que menos de 10% dos pacientes que poderiam se beneficiar dos GLP-1s terão acesso a essas terapias até 2030. Tedros destacou que, sem políticas coordenadas, o avanço da classe pode ampliar desigualdades entre países e entre diferentes grupos populacionais.
A nova diretriz dialoga com a decisão tomada pela OMS em setembro, quando semaglutida e tirzepatida, princípios ativos presentes em Ozempic, da Novo Nordisk, e Mounjaro, da Eli Lilly, foram incluídas na lista de medicamentos essenciais para o tratamento da diabetes tipo 2 em populações de risco, embora a agência não tenha estendido a indicação para obesidade.
O documento contempla três terapias recomendadas para adultos com Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30: semaglutida, tirzepatida e liraglutida. A OMS trabalhará ao longo de 2026 com governos e demais partes interessadas para ampliar a escala de produção, aprimorar mecanismos de aquisição, como compras consorciadas, e priorizar o acesso de grupos com maior necessidade.
Com a expectativa de que o impacto econômico da obesidade ultrapasse US$ 3 trilhões anuais até 2030, a diretriz pretende orientar políticas, decisões de investimento e iniciativas de saúde pública, contribuindo para a construção de modelos mais sustentáveis e equitativos de tratamento.